
Calma ! Fique tranqüilo, caro leitor, Yogacara não é mais um novo sistema de Yoga, nem é um aviso para informar que o preço das aulas aumentou. Ao contrário, trata-se de uma linha de pensamento budista, e é bem antiga. Faz parte do arcabouço filosófico que sustenta os princípios básicos do caminho elaborado pelo Buda. Claro, lógico e evidente, como não podia deixar de ser; o nome já diz tudo, inspira-se na vivência do Yoga, a matriz, a união que permeia os caminhos espirituais oriundos da Índia.
Quem nos explica muito bem o que é Yogacara (pronuncia-se yogachárya) é Mircea Eliade, em seu memorável livro Yoga – Imortalidade e Liberdade, editado no Brasil com o selo da Palas Athena, em 1996. São 398 páginas de profundos ensinamentos. Eliade era um romeno radicado nos EUA e especializou-se no estudo das religiões comparadas e seus ótimos e vários livros são verdadeiras aulas de ecumenismo, democracia, tolerância religiosa e rigor científico. Ele foi professor visitante em diversas universidades do primeiro mundo.
No capítulo V o autor fala das “Técnicas Yóguicas do Budismo”. Muito bom e esclarecedor, há uma parte dedicada à Yogacara, que floresceu muito no Sri Lanka e no Tibet e hoje está representada pelo Budismo Tântrico, tanto em linhagens do Budismo Tibetano quanto na Escola Shingon, do Mahayana japonês. Erudito e sempre bem documentado, Mircea Eliade cita um antigo texto canônico onde são listadas nada menos que 1344 (isso mesmo: mil trezentas e quarenta e quatro) meditações (página 168).
Os yogacaras, ou yogacharas ou ainda yogacharyas praticamente dominaram, a partir do século V de nossa era, todo o pensamento do Budismo Mahayana, o chamado Grande Veículo.
Ao praticarmos a importante e fundamental técnica da Plena Atenção já encontramos dificuldade, mediante a desatenção reinante no mundo moderno, em função das múltiplas solicitações da mente, imagine praticar 1344 meditações. Na verdade, esse número reúne uma série de “ajudas” para tornar a nossa concentração mais fácil. A literatura budista fala em “meios hábeis” para fazermos uma boa meditação e assim são utilizadas cores, imagens, sons, luzes, desenhos mágicos ou mandalas, os 4 elementos: terra, fogo, ar e água, são as chamadas kasinas, em língua páli, uma variante do sânscrito. Literalmente, “Kasinas são meios idôneos para se chegar a uma concentração perfeita”.
Um outro autor, Edward Conze, em seu livro “Budismo – sua essência e desenvolvimento”, publicado no Brasil pela Editora Civilização Brasileira, em 1973, considerado por muitos especialistas como uma das melhores obras que já se escreveu sobre o caminho de Buda no Ocidente nos fala que “A tradição da Lógica Yogachara ainda é ativa no Tibet. Ligada aos textos lógicos da Índia, encontramos na China e no Japão uma vasta literatura, até o século XV” (página 167).
Feliz estação de Inverno para todos, com boas meditações, mentalizações e visualizações.
Antonio Carlos Rocha



